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CRÍTICA: Gota D Água a Seco

Por Samuel Carrasco

É impressionante como Gota D’Água gosta de surpreender. Começa lá atrás, ainda em Medéia, passando pelo enlace atual, poético e musical de Chico; ganha novos adereços com o tempo, novos rostos e novos sangues, e aparece assim, concentrado, como uma redução gastronomicamente elaborada, com sabores ressaltados, sem delicadeza, só força.

Foto: Divulgação

Fui mais de uma vez assistir (na temporada do Rio e agora em São Paulo), não tem como digerir tudo de uma vez. É uma imensidão de detalhes, de lógica, de erupções que é delicioso ter esse contato por mais de uma vez. Uma paixão feroz, sabe? Um sexo casual, algo que você precisa de mais tempo tentando entender o que aconteceu do que a duração do acontecido.

São dois personagens em cena, Joana e Jasão. No palco, dois atores, Laila Garin e Alejandro Claveaux. Ela mais velha que ele alguns anos, na arte e na vida, quase uma relação professora-aluno, ou uma bomba-relógio e sua vítima curiosa, uma intersecção saudável e benéfica para ambos. Laila consegue absorver cada palavra do texto, cada significado, cada angústia. Consegue trazer humor através do cansaço, da ironia que escapa. Alejandro bebe da fonte Laila e faz um belo contraponto de atuação, já se utilizando mais da força física do que da psicológica. A tensão que ela traz se dilui na calmaria com que ele rebate e, mesmo nos momentos de mais violência, o tempo interno ainda mantém seus objetivos escancarados. “Você é muito intensa”, reclama Jasão ao explicar sua separação. Que atuações.

Mas também vamos falar da direção! Dessa vez Rafael Gomes resolveu embrulhar seu presente (para nós, claro) com um papel assimétrico, duro, sem carinho (mas com desejo), quase que instintivo, o que deu mais destaque a profundidade textual da obra. A escolha estética, cenário e figurino, funcionam como co-narradores, engana-se quem pensa que os dois estão a sós no palco. A precisão, o corte seco, é o que dá o acabamento necessário.

E AS MÚSICAS? Grandes acréscimos do repertório de Chico foram feitos, canções que fazem todo sentido quando inseridas nessa obra!

Pra terminar, como não falar da produtora Sarau Agência que mais uma vez nos permite desfrutar da arte brasileira com tamanha competência!

Tem que ver! Mais de uma vez!

Tá no Teatro FAAP até 18/12. Sextas e sábados às 21h e domingos às 20h.
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